Fujo de casa e da tevê que noticia
a ruína de 1.500 vidas nas últimas 24 horas
São 15.000 mortos em dez dias
Famílias sepultadas em covas rasas
Na beira do rio entre os pássaros
busco sossego e alento ao pranto
Cantam correm bicam água e bicam-se
Acasalam
O coração alivia-se em paz e paraíso
Cruzei há pouco com banal cena cotidiana
que nem assombra mais
Dois homens esfaqueiam um passante
para roubar relógio carteira celular
Mas aqui aliviam-me os pássaros próximos
Quero-queros garças revoam com graças
Renovam a força do coração taquicárdico
A bicharada na beira d’água
apresenta o paraíso ao corpo aflito
E o pulso retoma a esperança
Um martim-pescador faz sobrevoos de caça
e afunda a cabeça n’água
Decola com pequeno peixe no bico
quando vários pássaros o atacam
Um rouba-lhe a caça
Outro com uma bicada arranca-lhe um olho
e um terceiro leva o outro olho
do pássaro ferido à minha frente
A covid abre milhares de covas rasas
Agora entro em casa
Ferido à faca pelos assaltantes
e com uma ave cega para cuidar
Em que escola de assassinos
alguns pássaros aprenderam a rapinar
igual aos homens?